Inauguração dos silos na Moave em Cabo Verde

Inauguração dos silos na Moave em Cabo Verde (discurso da Inauguração
pelo Ex.mo Sr presidente do Conselho de Administração Sr. João Leão).

"Começamos por falar-vos de um homem que muito admirei e do seu sonho. E digo que admirei conjugando o verbo no passado, com uma nota de saudade, porque embora esteja vivo este homem é vítima de uma das doenças mais cruéis de todos os tempos, que o afastou do nosso convívio, e para a qual, no dealbar do século XXI, a medicina ainda não logrou encontrar solução: o síndrome de Alzheimer.

Falamo-vos, como muitos de vós tereis decerto deduzido, de José Ernesto Brigham da Silva.

Temos a vaidade como uma das mais inqualificáveis fraquezas do ser humano e por isso enaltecemos a sobriedade e a austeridade de carácter do Eng.º José Ernesto Brigham da Silva, que associadas a sólida formação e determinação profissionais e a um elevado sentido cívico, levaram-no a sonhar uma empresa fabril que tornasse Cabo Verde auto-suficiente em matéria de aprovisionamento de farinha de trigo, a partir, evidentemente, da importação e transformação do grão, que a aridez do nosso clima não nos propicia, farinha de trigo, dizíamos, indispensável para, entre outras aplicações, a confecção de um dos alimentos preparados mais antigos da história da humanidade, o pão, com respeitável tradição de consumo nas nossas ilhas, especialmente nos meios urbanos.

A Moave, criada por escritura pública de Julho de 1972, foi originariamente um projecto inteiramente assente em capitais privados nacionais, ponto de convergência de interesses díspares e concorrenciais dos antigos importadores de farinha, que a destreza, a capacidade de harmonizar vontades e o espírito visionário do Eng.º Brigham da Silva conseguiram unir para bem da economia de Cabo Verde.

Tanto quanto sabemos terá sido uma das primeiras vezes que cabo-verdianos se associaram num projecto empresarial de considerável envergadura, não assente em bases unifamiliares.

A admissão do Estado como accionista, em 1978, consubstanciou, à luz dos valores da época e dos então interesses estratégicos de todas as partes, um casamento feliz.

Com efeito, vivendo no estado de graça de todos os países que alcançaram a independência, Cabo Verde beneficiou de programas internacionais de ajuda alimentar, que proporcionaram ao accionista Estado a realização do seu capital na Moave através do fornecimento de trigo. Tal forma de realização de capital aliviou o peso dos financiamentos que a Sociedade teria de obter junto da banca para garantir a sua exploração.

Mas nem por isso a participação maioritária do Estado no capital da Moave se traduziu por uma intervenção excessiva, pautada apenas por critérios políticos e administrativos que pudessem comprometer a lógica dos critérios empresariais de gestão. É devido a essa postura correcta da então tutela que a gestão da empresa se manteve nas mãos do seu promotor privado e foi exercida com autonomia e a isso se deve, em parte não menos importante, o sucesso deste empreendimento.

O desgaste natural dos equipamentos instalados desde a fundação da fábrica e o crescimento do consumo de farinha de trigo em todo o território nacional impuseram, há alguns anos, a consciência da necessidade do relançamento do investimento.

Foi assim que a Administração presidida pelo Sr. Júlio de Carvalho Vera Cruz, cuja memória também relevamos, assinou em Novembro de 1995 o protocolo com o Estado, através do qual a empresa se obrigou a desenvolver um ambicioso programa de investimentos e de modernização que lhe permitissem tornar-se competitiva e apta a enfrentar o mercado aberto, conforme as exigências de um mundo cada vez mais globalizado em matéria de negócios.

A primeira fase do projecto, concluída no ano 2000, consistiu na aquisição e instalação de equipamentos de limpeza e humidificação do trigo, totalmente automáticos, o que conferiu maior rapidez ao processo de trabalho.

A segunda fase, que hoje se inaugura, compreendeu a construção de quatro silos metálicos para armazenagem de farinha, com a capacidade de 150 toneladas cada, o que representou o aumento da capacidade de stockagem de 300 para 900 toneladas.

Consistiu ainda na construção de três silos metálicos para armazenagem de sêmea e na instalação de um sistema informático de controlo de todo o circuito de ensaque, tendo a estação de ensaque sido equipada com os meios suficientes para apresentar oportunamente farinhas diversificadas e de melhor qualidade.

Convém destacar que o investimento já realizado atinge o montante de 230 mil contos e que o auto-financiamento atingiu mais de 70% do total, o que em si revela a confiança que deposita o corpo accionista na economia nacional. Note-se que o sector industrial, porque envolve grandes riscos e porque o retorno do investimento nesta área se processa a longo prazo, não tem sido privilegiado pelo empresariado nacional, que sucessivamente vem apostando em actividades comerciais não produtivas e de curto prazo.

Por isso mesmo, encarando o investimento industrial como uma atitude patriótica, entendemos ser de bom tom realçar que, não obstante toda a pressão no sentido de maior abertura do mercado nacional, cabe a quem de direito estimular, apoiar e reconhecer através de acções normativas concretas a aposta dos aforradores nacionais.

Nos tempos que correm não nos parece favorável ao ambiente de negócios, que poderá permitir a inserção de Cabo Verde na economia mundial e o desenvolvimento necessário à criação de melhores condições de vida para as populações, que correntes de pensamento que insistem em olhar para os empresários como se de parasitas se tratassem e a olhar para o lucro como um pecado – passo ambas as expressões – tenham eco junto dos poderes instituídos. E se assim o afirmamos é porque a moderna sociedade da informação expõe inexoravelmente os nossos comportamentos à janela do mundo, de tal forma que discursos passadistas dificultam a manutenção da imagem e do clima de confiança indispensáveis à torrente de investimentos de que o nosso país tanto carece para a criação de postos de trabalho, que permitam manter uma sociedade politica e socialmente estável e mais justa.

Por isso, temos esperança de que o Governo da Nação tenha a audácia e a perspicácia suficientes para apoiar a indústria nacional com a manutenção e o reforço dos programas e incentivos vitais para o seu desabrochar, criados desde 1989. A presença de V. Ex.a, Sr. Ministro da Economia, neste acto inaugural, reforça esta nossa esperança e dá-nos um certo conforto. São necessárias coragem e confiança para realizarmos a terceira fase deste nosso projecto de modernização, estimado em mais de 120 mil contos, que irá permitir à Moave duplicar a capacidade de moenda de 80 para 150 toneladas/dia, e, quiçá, experimentar o mercado de exportação, fortalecendo a economia de Cabo Verde.

Para terminar, permitam-nos senhoras e senhores, que destaquemos o papel fundamental que teve na execução dos nossos projectos a figura do Sr. José Alfredo Rodrigues, director de produção da Moave, bem como as empresas BUHLER e TECNBREM, aqui representadas pelos Srs. Khamm e José Braga, respectivamente.

Estão de parabéns também todos os homens e mulheres, cujos nomes não mencionamos, que trabalharam e trabalham diariamente nesta empresa, sem cujo contributo não teria sido possível levar à prática e manter de pé o sonho do seu fundador.

Viva a indústria cabo-verdiana
Viva Cabo Verde"

 
 
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